caboclo de lança


Quando eu era menina tinha medo daqueles homens com a cabeça grande, sempre olhando para o chão com sua flor na boca. Por que eles são tão grandes, pensava… Talvez eu, com a inocência de uma criança, pudesse ver a magia da cultura com os olhos limpos. Os via tão fortes, tão grandes e tão poderosos com aquela ornamentação toda. Mas eis que ali dentro encontra-se um sertanejo… um sertanejo com suas cicatrizes da vida. Magrinho, coitado! No entanto, ao vestir sua fantasia e fazer seu ritual de incorporação aquele sertanejo coloca para fora toda sua força e poder.

[…] os caboclos saem protegidos tanto pela “guiada” (a longa lança de madeira) […] como pelo “calço” espiritual […]. É o ritual da purificação […] que apóia o caboclo disposto a sair num Carnaval. […] Por isso, antes de sair já na 6ª feira, começa a abstinência que faz o Caboclo, até a 4ª feira de Cinzas, não mais procurar mulher, nem tomar banho ”para não abrir o corpo”, obrigando-o a dormir mesmo sujo como veio da rua. Na hora que vão sair no primeiro dia todos vão para a “mesa”. O Mestre faz um preparo que se bebe com uma flor dentro do copo e mais três pingos de vela santa. Aí então o Mestre autoriza a saída do caboclo. Muitos saem com um cravo branco ou rosa na boca ou no chapéu para “defesa”, para fechar o corpo […]. A “rua” é sempre o exterior perigoso e repleto de riscos ocultos. Quem anda pelo “meio da rua” precisa estar “preparado” e protegido de todo o mal. Por isso os caboclos tomam o “azougue” [violento coquetel de pólvora, azeite e aguardente], preparado pelo Mestre. […] Ao voltarem, na quarta-feira, vão logo à Igreja tomar Cinzas e “se despedirem” de alguma coisa errada feita no Carnaval.

 

Título – Caboclo de Lança
Técnica – Acrílico s/ tela
Tamanho – 50 x 60