Um domingo ensolarado


234Acho que esse domingo foi o dia em que cheguei mais tarde na feira. Eram por volta das 8:30h quando estacionei o carro e fui em direção a minha barraca. Cadeira em um braço, banner no outro e minha velha e companheira mochila nas costas. Lá vou eu para mais um domingo ensolarado na cidade de Manaus tentar viver de arte.

O dia estava lindo. O céu azul cintilante brilhava diferente naquele domingo. Uma sensação de alegria rondava toda a feira. Hoje vai ser um domingo bom, pensei eu! Não foi á toa que tive essa sensação contagiante. As pessoas estavam tranquilas, as vendas estavam boas e o clima ajudou a transformar aquela linda manhã de domingo em uma típica manhã de feira de artesanato.

Já eram 9:15h quando consegui montar a barraca inteira. Algo estranho aconteceu. Acho que levei um quadro a mais porque sobrou um e não tinha mais espaço para pendurá-lo. Não importa, já , já vendo um e coloco este no lugar do vendido, pensei eu!. Pensamento positivo sempre!

Quando finalmente sentei lembrei dos meus companheiros de trabalho, aqueles que não têm barraca e ficam na calçada vendendo suas artes. Será que eles já chegaram? Olhei para trás e lá estavam eles. O caricaturista, o artista persistente e o malandro. Dei um sorriso, um bom dia e um desejo de boa sorte. O domingo começou!

Minhas preces foram ouvidas. Logo vendi um quadro e coloquei o que estava escondido no lugar dele. Agora assim, todos estão no seu devido lugar…

Cada domingo é uma história, cada domingo a feira está com uma atmosfera diferente. Nesse, em específico, as pessoas estavam falantes. Os clientes queriam conversar, bater papo, contar as aventuras e fatos engraçados de suas vidas.  Logo, logo, apareceu Gustavo. Garoto magro, alto, branco, deveria ter por volta dos seus 25 anos.

Muito simpático, Gustavo já chegou elogiando as minhas telas. Adorou o quadro da “Árvore dos Sonhos”, perguntou o valor e foi logo falando dos seus sonhos e aventuras. Para um garoto de apenas 25 anos ele era bastante corajoso e obstinado.

Nascido em São Paulo, Gustavo veio para Manaus por causa de um amor. Conheceu uma manauara, apaixonou-se e largou tudo para viver essa paixão aqui na cidade de Manaus. Chegando aqui, o namoro terminou, mas ele quis ficar porque conheceu um outro amor. Já adaptado à cidade, Gustavo atualmente cursa letras na UFAM. Muito inteligente e obstinado ele vende os livros que escreve na feira, no teatro e em outros locais da cidade.

Perguntei porque ele não tenta publicar o seu livro em alguma editora. Ele respondeu que sai muito caro e o valor que é revertido para o autor é mínimo e não vale a pena. Seu sonho é ter sua própria editora e poder incentivar os pequenos escritores a publicar seus livros. Quis comprar um livro dele, mas felizmente ele já tinha vendido todos em pouco tempo de feira. Dei os parabéns, pois além de obstinado, inteligente e criativo ele era um bom vendedor.

Acho que vender livros deve ser mais difícil do que vender quadros, eu pensei! Pelo menos quadros a pessoa pode ver na hora se gostou ou não. Com livro é diferente… Ao comprar um livro a pessoa só saberá se gostou após terminar de ler a última página. Compra-se pelo simples fato de gostar de ler e apreciar o mundo da imaginação.

Gustavo era, realmente, um excelente vendedor!

Claro que eu pedi o contato dele, achei Gustavo um jovem especial. Ele era sonhador e queria viver desse sonho. Ele sabe que não será fácil, mas não está nem aí. Tranquilo, calmo, sua voz era serena e sua conversa contagiante. Fiquei curiosa para ler um livro dele. Próximo domingo, se ele estiver lá, vou comprar.

A nossa conversa durou em torno de 35min, ele elogiou bastante o meu trabalho e disse que um dia iria comprar um quadro meu. Fiquei feliz! Nos despedimos e ele continuou o seu caminho. Lá se foi Gustavo. Ainda dei uma última olhada para trás e lá estava ele… alto, magro, branco e com uma mochila nas costas. Será que todo sonhador carrega uma mochila nas costas? Olhei para a minha e era bastante parecida com a dele. Acho que sim!