Nunca pensei em viver de arte, hoje não vivo sem ela.


IMGP4783O domingo estava nublado, o sol não queria acordar. Escondido ficou até eu chegar na feira. Ainda tímido, mostrou os seus primeiros raios por volta das 9h. O dia seria chuvoso… Foi até bom, pois amenizou o calor insuportável dos dias anteriores.

Aos poucos os clientes começaram a chegar, o movimento aumentou e o sol apareceu. Por um momento achei que o domingo de feira não seria proveitoso. E esse momento foi seguido de um fato bastante negativo para quem está trabalhando em pleno domingo.

-“Pensava que iria viver de arte, mas não consegui… hoje não vivo dela!”

Olhando para mim como quem “prevê” o meu futuro, essa pessoa diz a frase que nenhum artista quer escutar. Ainda sem entender e sem saber quem falou uma frase tão negativa para mim, olhei em direção a voz que falava comigo.

-” O quê?” Perguntei!

– “Quando eu tinha a sua idade eu pensava que iria viver de arte… Hoje vejo que a realidade é outra…”

Fiquei alguns minutos pensando naquele homem e sem entender o motivo pelo qual ele falou isso para mim. Tive a nítida sensação de que ele via em mim apenas uma jovem e aventureira mulher que está em pleno domingo vendendo quadros para quebrar paradigmas e viver de arte. Mas que em alguns anos essa energia aventureira iria ter um fim e provavelmente eu iria me render a realidade e aceitar qualquer subemprego que exorcize a minha criatividade e definhe a minha alma.

Ainda sem entender continuei calada aguardando a próxima frase daquele que um dia disse ser um artista. Enquanto ele falava muitas baboseiras meus ouvidos não escutavam mais a sua voz e, naquele momento, comecei a analisá-lo.

A sua fisionomia retratava uma pessoa que não ama muito o corpo e a vida que tem. Dentes amarelados de fumante, barriga de quem ingere um quantidade considerável de álcool, roupa abarrotada e a barba por fazer. Essa pessoa, com certeza, esqueceu-se da sua essência e um dia desistiu dos seus sonhos e objetivos.

Foi aí que lembrei de uma frase da queridíssima Nise da Silveira.

“Para navegar contra a corrente são necessárias condições raras: espírito de aventura, coragem, perseverança e paixão.”

Aquele pobre homem, corroído pelas adversidades da vida, poderia até ter essas condições, mas uma delas, com toda certeza, faltava-lhe: perseverança.

Quando tomei a decisão de que não mais queria viver da área jurídica e que a partir daquele momento dedicar-me-ia de corpo e alma a arte e ao design de interiores, eu sabia que meu futuro não seria fácil. Mas uma coisa eu tinha em mente: eu vou conseguir! Mas entre a minha decisão e o meu objetivo existe um longo caminho a ser percorrido e nesse caminho a perseverança deve seguir junto.

Quem disse que será fácil? É preciso muito estudo, dedicação e privação quando se quer alcançar um objetivo. Nesse caminhar muitas adversidades ocorrerão, mas caberá a mim seguir adiante e focar na minha paixão. A arte sempre estará comigo.