Surpresas da Feira


A chuva não me deixou sair da cama nesse domingo. O dia ainda estava escuro quando acordei. O céu cinza, carregado de nuvens; o vento frio entrando pela brecha da janela e, no canto do quarto, o relógio teimava em lembrar que eu estava atrasada para ir à feira.

Finalmente levantei e logo a disposição chegou. Estava toda animada para começar o meu domingo na maravilhosa feira da Eduardo Ribeiro, mas…. a chuva continuava firme e forte lá fora.

Tempo, tempo, tempo, tempo, tempo…. minutos, segundos… passando… esperando…

A chuva deu uma trégua e, mesmo achando que a feira seria “fraca” nesse domingo, levei o meu melhor quadro para ser visto. Lá fui eu para um maravilhoso domingo de feira tentar viver de arte.

– BOM DIA MARCELA!!!!!

Mal cheguei na feira e sou saudada pelo mestiço mais lindo que já vi. Com apenas 13 aninhos ele é uma mistura bem brasileira… tem os olhos puxados de japonês, pele avermelhada de índio e feições afiladas do “homem branco”. Com essa mistura toda não poderia deixar de ter a simpatia do povo brasileiro.

– Bom dia, respondi!

Aquele bom dia, todo abrasileirado, me deu boa sorte. Não foi á toa que senti uma sensação boa. Logo, logo, iria ter várias surpresas. A Eduardo Ribeiro tem dessas coisas, é uma rua cheia de mistérios. Lá tudo acontece…

Os clientes começaram a aparecer. Alguns chegavam perto, olhavam e iam embora; outros chegavam ainda mais perto, timidamente pediam um cartão e também iam embora; muitos chegavam para conversar e bater papo sobre artes. Nesse tempo dois homens chamaram a minha atenção. Vieram em direção a minha barraca e começaram as perguntas:

– É você quem pinta as telas?

– Quanto custa, em média, os seus quadros?

– Você tem ateliê?

– Tem como a gente fazer uma visita nele?

– Quantos quadros você já pintou?

– Que tipo de moldura você usa?

– Você pinta em tela?

– Parabéns, gostamos muito da sua arte!

Os dois estavam interessados no meu trabalho, mas percebi que um era um pouco mais tímido e observador. Ele Olhava as telas com curiosidade e analisava tudo com bastante cuidado.

O mais alto e mais falante apresentou o seu amigo tímido para mim. Antes mesmo da apresentãção ser feita, tive uma estranha sensação de que já o conhecia de algum lugar. Logo eu iria saber de quem se tratava…

– Ele também é artista plástico. Trabalha com telas! Disse o senhor falante, apresentando o seu amigo.

– Quem coisa boa, e qual é o seu nome?

– NOLETO.

AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH

Claro que eu gritei em pensamento, mas a minha vontade era de dar uma gargalhada de felicidade. Sabe aquelas horas que ficamos bobos e nos comportamos como crianças? Pois é, nesse momento eu não soube muito bem como me comportar e simplesmente dei a minha mão para ele apertar e disse a seguinte frase ridícula:

– Que bom, eu sou sua fã!

“Que bom, eu sou sua fã” e em seguida um aperto de mão!? Como assim? Até hoje eu me pergunto porque fiz isso. Poderia ter dito tantas outras coisa, mas esses momentos que ficamos abobalhados não podem ser julgados. Só quem passa a vergonha é quem sabe e eu tenho certeza de que todo mundo já passou por uma situação ridícula ao conhecer aquela pessoa que você sempre admirou.

Enfim… quando o momento “infantil” passou e eu voltei ao meu estado normal de consciência, pude conversar mais calmamente com ele e agora quem fazia as perguntas era eu.

Assim que eu cheguei em Manaus tive a curiosidade em conhecer os artistas locais e um deles chamou a minha atenção. NOLETO SILVA. Com uma arte diferenciada e uma sensibilidade apurada, esse artista de traços delicados e precisos remete o observador a um mundo onírico e inconsciente.

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Em 2012 tive a oportunidade de ir para a Pré-Bienal de Artes da Amazônia, um evento que reuniu 30 artistas representantes de Manaus. Um deles foi o Artista plástico Noleto.

Até então só o conhecia através dos livros e das suas artes, mas, como disse acima, na rua Eduardo Ribeiro tudo pode acontecer e foi através da feira que pude conhecer pessoas interessantes, ouvir histórias incríveis e ver fatos da vida que só uma imagem pode reproduzir. Ser elogiada por um artista que há tanto tempo já admirava e poder conversar com ele de forma relaxada e descontraída foi um prazer que só quem é artista sabe do que estou falando.

Mais uma vez a feira me surpreendeu e me presenteou com a presença desse maravilhoso artista plástico que encanta o mundo com sua arte. O dia começou nublado, mas o sol iluminou a minha barraca a manhã inteira.

ALGUMAS OBRAS DO ARTISTA PLÁSTICO NOLETO:

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E aí, cê gostou da surpresa? Então conta pra mim o que tu achou!