Deixem as mães enterrarem seus filhos: Vamos falar sobre luto gestacional


 

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Amamentando o meu segundo filho Lorenzo. Créditos do papai J. Zamith Filho.

Lembro como se fosse ontem… o dia estava lindo, o céu azul contrastava com as nuvens brancas em formato de algodão doce. Mas lá estava eu, olhando para aquele céu lindo, ainda absorvendo a pior notícia que recebi em toda a minha vida. Carregava ela dentro do meu ventre, sem vida e sem esperanças. E eu pensei: o céu não deveria estar tão lindo hoje, o universo inteiro deveria estar de luto.

Era abril de 2013 eu não escutei o coraçãozinho do meu pequeno bebê que até então crescia dentro mim. Foi triste, doeu na alma… o mundo inteiro parou ao meu redor e eu ainda não acreditava no que estava acontecendo. Os dias passaram e o meu corpo ainda nem entendia que o bebê já não vivia dentro de mim e continuava produzindo os hormônios e cumprindo com a sua rotina de gerar uma vida.

Mas por que estou escrevendo sobre isso depois de tanto tempo? Sim, estou muito bem resolvida quanto a essa forte história que foi escrita nas linhas da minha vida. Uma experiência que precisou ser trabalhada com respeito, tempo e de coração aberto. Não esperei do mundo o apoio que precisei, pois as pessoas ao meu redor não entendiam a minha dor.

Essa semana entrei em contato novamente com essa histórida da minha vida quando, por um acaso, soube da perda gestacional de uma conhecida e no meio da conversa ouvi o que mais escutei na época em perdi o meu bebê: “Ainda bem que ela perdeu no comecinho da gestação, assim nem dá para sofrer tanto.” E assim tantas outras frases de apoio são proferidas nesse momento tão delicado na vida de uma mãe. Sim, MÃE! Não passamos a ser mãe apenas quando o nosso filho nasce. Somos mães no momento em que deixamos esse novo ser fazer parte das nossas vidas e assim entramos em contato com o mais incrível dos sentimentos que a Mãe Natureza nos proporciona.

No entanto, para não se sentir uma estranha, pois todos ao nosso redor afirmam que realmente somos uma felizarda por perder o bebê no comecinho da gestação e não no meio ou no final, nos calamos e colocamos a máscara da “aceitação”. Passamos a acreditar que fomos agraciadas pelo tempo e que realmente foi melhor ter sido naquele momento e não depois. Engolimos o choro, colocamos o sentimento embaixo do tapete  e retomamos as nossas atividades normalmente após a curetagem.

Não é permitido chorar, pois estaríamos sendo INGRATAS a bênção que recebemos do destino: o de interromper a gestação cedo e não mais para frente; ou então de nos livrar de um bebê com má formação; ou melhor… não era o momento propício para engravidar, ainda temos muito o que viver. Enfim, são inúmeras as palavras de consolo que recebemos nesse momento de profunda tristeza. Mas o que queremos é apenas um “DEIXEM AS MINHAS LÁGRIAMAS SAÍREM”, deixem que elas façam parte do meu processo de limpeza e aceitação, deixem que eu me acostume com essa separação, deixem que eu sinta saudades, deixem que eu sofra, deixem que eu dê o meu último adeus e faça o meu ritual de despedida. É preciso deixar as mães enterrarem os seus filhos.

O ciclo precisa fechar e, para que isso aconteça, é necessário viver o luto, sentí-lo, digerí-lo, mergulhar profundamente nesse processo de cura. Só assim sairemos dele com a enorme gratidão de ter tido a oportunidade de vivenciar a mais grandiosa das experiências… mesmo que por tão pouco tempo.

Hoje eu sei porque aquele dia estava tão lindo… Ser mãe é viver em plenitude o tempo inteiro, mesmo que estejamos exaustas, cansadas, estressadas, insatisfeitas… mesmo que estejamos tristes o amor pelo nosso filho não muda. Aliás, muda sim! Em quantidade, aumenta rumo ao infinito. Mesmo não escutando o coraçãozinho dele bater em meu ventre, eu podia sentir o quanto de amor ele deixou dentro de mim e era por isso que o mundo estava diferente naquele dia, mais bonito e colorido. Apesar da minha tristeza eu já tinha mudado, o amor de mãe e filho já havia sido plantado em meu coração. Eu mudei, o mundo mudou!

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2 comentários sobre “Deixem as mães enterrarem seus filhos: Vamos falar sobre luto gestacional

  1. Seu texto, apesar de um tema triste, é muito belo e tocante. Não sou mãe ainda, mas pretendo um dia ser – só imagino o quanto de amor será transposto para mim pelo simples fato da informação de se estar grávida. Esse tema do luto gestacional ainda é tabu e o seu texto clareia esse fato da vida de uma forma sutil e ao mesmo tempo escancaradora da verdade. Já vi pessoas próximas que passaram por isso e realmente as frases faladas foram essas que você citou no texto, normalmente seguidas por um meio sorriso e uma falsa esperança de “pode contar comigo”. Fiquei arrepiada com suas palavras e tocada com a sua linda percepção de que o dia está belo porque ali existe uma mãe e porque o amor está ali e sempre estará. Abraços!
    Barbara Filippini (Presente do Ler – https://www.presentedoler.com)

    • Olá Barbara, fico muito feliz que a minha visão sobre a perda gestacional conseguiu tocar você de uma forma tão verdadeira e sutil. realmente, o dia continuava belo apesar da situação e da minha angústia. O aprendizado é infinito e é isso que levamos da vida! Um grande abraço e fique em paz!

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