Minha Ignorância e Eu


Related image

Semana mundial da amamentação e vários movimentos lindos acontecendo por aí afora. Eu, do lado de cá, observando tudo com muito carinho e lembrando dos momentos de intimidade, troca, doação, cumplicidade e aprendizado que eu tinha com meu filho.

Eu tive leite e pude alimentar o meu bebê com o melhor alimento que a natureza fabrica em abundância e generosidade. Mas depois de um tempo eu descobri que amamentar não é fácil para a maioria das mulheres e fiquei surpresa com isso. Achava que era simples para todas, assim como foi tranquilo comigo.  Devo o sucesso da minha amamentação a duas coisas:

  1.  a minha ignorância;
  2. a sabedoria de mulheres ignorantes.

Tive o meu filho em hospital público e lá descobri o submundo dos tratamentos desumanos vividos por mulheres, famílias e crianças que estão nascendo. Seja hospital público ou particular, infelizmente, essa ainda é uma forte realidade. Mas após o meu filho nascer, dar de mamar era um fato para mim. Nunca havia lido, conversado ou trocado alguma informação com alguém a respeito. Bebês nascem e precisam comer e para comer precisam mamar no peito. É assim que eu aprendi a vida toda. Então, as minhas brincadeiras com as bonecas quando criança foram o suficiente para achar que eu já sabia de tudo sobre a amamentação.

Mas quando os bebês nascem a coisa fica diferente e a prática nos mostra outra realidade. Após o meu filho nascer eu fui para o leito compartilhado com outras 8 mulheres e lá pude aprender sobre a amamentação real. Ao meu lado estava a Maria Claudia, mãe de 4 filhos e com uma desenvoltura nos cuidados e em todo esse processo com um bebê recém-nascido. Na minha frente estava a Rebeka, mãe de dois meninos e cuidando de uma terceira menininha sozinha há 3 dias no hospital recuperando-se da sua cirurgia cesariana. Ninguém para acompanha-la. Mais a frente estava a Paula, sofrendo com o primeiro filho e há 7 dias sem receber alta porque estava tendo dificuldades em amamentar por conta do seu mamilo invertido. E tantas outras compartilhando essas primeiras experiências com troca de olhares mútuos e curiosidades.

E lá estava eu, observando todas essas mulheres. Tentando entender como elas faziam aquilo com tanta desenvoltura e simplicidade. Então comecei a imitar e discretamente observava como a Maria Claudia massageava o seu seio antes de oferecer a mama à sua filha. Com a Paula aprendi a ordenhar e esvaziar a mama quanto estava muito túrgida. Já que ela não conseguia amamentar por conta do seu mamilo invertido, frequentemente lá estava ela ordenhando e colocando o leite num copinho para oferecer ao seu filho. Com a Rebeka aprendi a agradecer a toda ajuda que a minha mãe e meu marido estavam tendo comigo ao se revezarem naquela cadeira dura e quebrada durante os dias e noites em que passamos no hospital.

Todas elas tinham algo em comum: o leite materno era a única opção de alimento para os seus filhos. Complemento? Só se fosse leite Ninho, comprado na promoção. Eram os comentários entre elas compartilhados às gargalhadas durante as madrugadas no corredor do hospital. Com R$ 70,00, valor de uma lata de complemento, elas fariam muitas outras coisas. “Vai ser leite do peito até quando não tiver mais”, comentava uma delas.

E foi essa a minha doutrinação e a minha imersão no mundo da amamentação. Sem nunca ter conhecido o outro lado, o da dificuldade em amamentar, com essas mulheres eu fui iniciada e conheci um caminho simples e tranquilo de amamentar com naturalidade e instinto. Ricas em experiências e ignorantes aos olhos de um mundo cheio de estigmas com relação a amamentação e a todas as dificuldades que envolvem esse universo.

Para elas os “palpites” alheios são frases que as fazem rir e só servem para trocarem risadas umas com as outras, porque não há muito tempo para se prender as pequenezas da vida. Tudo é muito prático e simples, sem rodeios e sem amarras.

Mas eu tive um último aprendizado e esse eu aprendi antes mesmo de ser mãe, mas só fui compreender o seu real significado após a maternidade. Foi com a minha querida e adorada Frida kahlo, cujos quadros expressam sentimentos reais e sinceros. Com ela entendi o sentimento que permeia a amamentação. Ela se mostra uma mulher nua e crua, com suas fragilidades e potências. Seus quadros incomodam muita gente, justamente por conseguir acessar o observador. E aquele que a odeia é justamente o que mais foi tocado pela sua arte.

Em seu quadro Minha Ama e Eu, de 1937, Frida retrata o sentimento desumano da Ama de Leite.  No quadro, Frida expressa a sua própria amamentação, quando bebê está nos braços da ama de leite, cujo rosto está coberto por uma máscara de ferro. Não há contato visual da ama com o bebê, apenas um ato mecânico de amamentação. O leite escorre do mamilo para a boca de Frida, sem que sua boca toque o mamilo da ama. Sua mãe, por diversas dificuldades, não conseguiu amamenta-la.

Esse quadro sempre me incomodou. E esse é o forte de Frida! Na época ele me passava a imagem de uma amamentação fria e forçada, distante do seu sentido. Uma escravidão do prazer e da doação. Sim, para amamentar precisamos liberar Ocitocina, o hormônio do amor e prazer. E como faz quando isso tem que acontecer a qualquer custo? Aprisiona-se o amor?

Amamentação é troca no olhar, é contato pele a pele e é liberdade. E isso eu descobri sozinha, com meu filho me tocando e pedindo a minha atenção e o meu coração a cada mamada e a cada experiência que trocávamos no embalo da rede. Frida, em 1937 já denunciava a maneira distorcida e cruel de uma amamentação escravizada, violenta e mecânica. Enquanto que esse ato deveria ser de entrega, partilha e amor incondicional.

Na Semana Mundial da Amamentação eu compartilho o meu amor às mulheres sábias de coração e as transgressoras em seu tempo.untitled1untitled

 

rodapepost

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s